Estudantes angolanos denunciam rejeição massiva de vistos para o Brasil e temem perder bolsas de estudo
Mais de 100 estudantes angolanos beneficiados com bolsas de estudo para a República Federativa do Brasil denunciam a negação massiva de vistos de estudante, sem qualquer explicação, por parte das autoridades consulares, situação que coloca em risco o seu futuro académico.
Por: Débora Manuel
Os estudantes foram admitidos através do Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G) e a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), iniciativas promovidas pela federação brasileira que envolvem candidatos de vários países.
Segundo relatos, em Angola foram inicialmente seleccionados cerca de 349 estudantes para o PEC-G, além de dezenas colocados pela UNILAB. No entanto, até ao momento, aproximadamente 150 estudantes enfrentam dificuldades na obtenção do visto.
De acordo com os denunciantes, o processo começou a apresentar falhas ainda na fase de agendamento. “As datas disponíveis eram muito distantes do normal. Só depois de uma reclamação é que surgiram vagas para o dia seguinte, algo que antes era impossível”, afirmam.
Apesar da aparente normalização no agendamento, os estudantes relatam que, a partir de Fevereiro, começou uma negação generalizada dos vistos, sem qualquer justificação formal.
Segundo Regina Andrade, nome fictício, uma das estudantes seleccionadas, todos os candidatos que deram entrada os pedidos até ao dia 11 de Fevereiro tiveram os vistos aprovados. “Depois dessa data, praticamente nenhum visto foi concedido”, disse.
A estudante afirma ainda que muitos candidatos tentaram submeter o pedido, pela segunda vez, mas voltaram a receber respostas negativas, sem qualquer explicação.
Outro ponto que gera indignação é a alegada existência de esquemas informais. Segundo relatos, alguns poucos vistos aprovados estariam ligados a pagamentos ilícitos, com valores que variam entre 450 mil e 900 mil kwanzas, prática que os estudantes repudiam.
Além da frustração emocional, os estudantes denunciam prejuízos financeiros significativos. Segundo explicam, o processo completo de candidatura, legalização de documentos e pedido de visto pode ultrapassar os 500 mil kwanzas por candidato.
“Os nossos pais endividaram-se para apoiar este sonho. Agora, estamos a ver tudo a desmoronar sem nenhuma explicação”, afirmou uma das estudantes.
A situação torna-se ainda mais crítica devido aos prazos impostos pelas instituições de ensino brasileiras. Em alguns casos, como na Universidade Federal do Ceará, os estudantes têm até o início de Abril para se apresentarem, sob risco de perderem definitivamente as vagas.
Segundo os relatos, algumas universidades já indicaram que não se responsabilizam pela manutenção das vagas fora do calendário académico, o que aumenta o desespero dos candidatos.
Os estudantes afirmam ainda que já recorreram a várias instituições angolanas, incluindo o Ministério do Ensino Superior, o Ministério das Relações Exteriores e outros órgãos, mas, até ao momento, não obtiveram respostas.
Diante do silêncio institucional, apelam à intervenção do Governo angolano, defendendo que a cooperação entre Angola e Brasil pode ajudar a resolver a situação. “Somos estudantes, não turistas. Fomos seleccionados por um programa oficial. Só queremos os nossos vistos para estudar”, reforçam.
Por sua vez, o jornal Na Mira do Crime tentou contactar a Embaixada do Brasil em Angola por via telefónica, sem sucesso. A redacção enviou igualmente um pedido formal de esclarecimento, mas não obteve resposta.
Segundo a orientação recebida, o contacto deveria ser feito por e-mail, porém o endereço indicado encontra-se indisponível até ao momento.
Enquanto aguardam respostas, os estudantes vivem dias de incerteza, com prazos a esgotar e o risco real de perderem uma oportunidade que, segundo afirmam, poderia mudar não só as suas vidas, mas também contribuir para o desenvolvimento do país.











