NOTA NEGATIVA: No país do Manuel Homem onde os escândalos já nem escandalizam?
Há semanas em que é difícil escolher o “Negativo da Semana”, não por falta de opções, mas pelo excesso delas. Em Angola, infelizmente, a indignação já começa a disputar espaço com o cansaço.
E, para ser sincero, já há quem nem se dê ao trabalho de se indignar, limita-se a suspirar e seguir em frente, como quem já sabe o que vem a seguir.
Esta semana não fugiu à regra, antes pelo contrário, fez questão de reforçar o guião habitual. A sensação é quase a mesma de quem vai ao mercado ao fim-de-semana e leva tudo o que pode, não por necessidade imediata, mas porque sabe que durante a semana não haverá tempo nem paciência. Aqui, porém, o carrinho não vem cheio de produtos do dia-a-dia.
Vem cheio de denúncias, suspeitas, versões contraditórias e, claro, aquele ingrediente que nunca falha, que é o silêncio.
Por: Rebelo Spínola
O portal “Factos Diários” trouxe novamente à superfície um tema que já circula há algum tempo. Fala-se de cerca de 400 viaturas associadas a processos ligados à gestão de Manuel Homem, actual Ministro do Interior.
À primeira vista, pode parecer apenas mais um número numa lista administrativa, mas quando se começa a perceber o contexto, o número ganha outra dimensão.
Segundo o “Factos Diários”, essas viaturas terão sido distribuídas não apenas a responsáveis institucionais, mas também a pessoas próximas desses mesmos responsáveis. Próximas mesmo, no sentido em que nem sempre é preciso cumprir formalidades para estar incluído.
Há relatos que descrevem situações em que o uso de bens públicos parece ter ganho um toque pessoal, quase como se o Estado tivesse decidido emprestar a sua frota ao círculo mais íntimo de alguns protagonistas.
E aqui entra aquele tipo de humor involuntário que não faz rir, mas faz pensar. Ainda de acordo com o “Factos Diários”, há igualmente referências a pagamentos realizados, alterações contratuais e substituições de empresas em projectos públicos que levantam dúvidas sobre a forma como decisões são tomadas.
Tudo descrito de forma que, para quem lê com atenção, deixa mais perguntas do que respostas. E quando as perguntas começam a se acumular, já se sabe que a resposta tende a aparecer… tarde ou nunca.
O portal “Agita News” entra na conversa e acrescenta mais camadas ao quadro. Segundo o portal em causa, o Ministério do Interior continua no centro de denúncias que envolvem alegados favorecimentos, gestão duvidosa e utilização de recursos públicos em contextos que levantam preocupação.
O cenário descrito reforça a ideia de que não se trata de episódios isolados, mas de algo que, aos poucos, vai ganhando contornos de padrão.
E quando já parece que o assunto atingiu o seu pico, surge uma peça importante que muda o tom, ainda que não mude necessariamente o desfecho. O portal “Club K” refere que o Presidente João Lourenço terá ordenado uma inspecção ao Ministério do Interior, na sequência de denúncias remetidas ao seu gabinete. Segundo este site, foram mobilizadas equipas da Inspecção Geral do Estado (IGAE) para apurar eventuais incongruências na execução orçamental e na gestão de determinados processos internos. O “Club K” acrescenta que entre os pontos em análise estão aquisições, distribuição de viaturas e a aplicação de verbas do Orçamento Geral do Estado de 2025, incluindo projectos que terão sido reavaliados ou ajustados ao longo do percurso.
À primeira vista, parece um passo importante. Na prática, o cidadão comum já aprendeu a observar estes movimentos com alguma reserva, quase como quem já viu o filme e conhece o final, mesmo que ainda esteja no meio da história. O portal “O Decreto”, por sua vez, traz o outro lado, talvez o mais sensível de todos, o silêncio.
Segundo “O Decreto”, apesar das denúncias e das referências feitas a figuras como Mário Oliveira, actual ministro da Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social, não houve respostas públicas consistentes.
E esse silêncio, que em teoria deveria transmitir prudência, acaba por ser interpretado por muitos como ausência de prestação de contas. No meio disto tudo, o cidadão assiste, comenta, brinca e segue, porque em Angola, quando a realidade pesa demasiado, o humor aparece quase como reflexo automático.
Não resolve os problemas, mas ajuda a suportar o dia. E há mesmo quem diga, em tom meio sério meio brincadeira, que já não se espanta com nada, apenas confere se a história da semana já não tinha sido contada antes com outros nomes.
Portanto, entre o que é revelado pelo “Factos Diários”, o que é reforçado pelo “Agita News”, o que é analisado pelo “Club K” e o que permanece sem resposta segundo o “O Decreto”, fica um retrato que já não surpreende, mas continua a incomodar.
Não é apenas a gravidade das denúncias, mas sim a forma como tudo se repete, como se o país estivesse preso num ciclo em que se fala muito, se explica pouco e se muda ainda menos.











