Diálogo com a juventude: João Lourenço manda farpas à UNITA enquanto CNJ dorme à sombra da bananeira
Decorreu hoje, quinta-feira, 26, no Centro de Convenções de Talatona, o encontro entre o Presidente da República, João Lourenço e os representantes de jovens angolanos dos mais variados grupos
Por: Marlita Domingos
Na abertura do evento, por sinal, o terceiro encontro, denominado diálogo com a juventude, o Presidente da República referiu que a crise que o País vive deve-se ao baixo preço do petróleo e do alto índice do endividamento externo, sendo que, grande parte das receitas que o País consegue são alocadas para o pagamento da dívida externa.
De acordo com o Presidente João Lourenço, a pandemia da Covid-19, agudizou a situação social de Angola e dos jovens, de forma particular.
Das intervenções dos jovens, o realce recai para a solicitação de mais emprego, mais habitação, a realização das eleições autárquicas e o apelo as forças de defesa e segurança para se evitar a violência contra os cidadãos nas manifestações.
CNJ um representante fraco para a juventude
Isaías Calunga, em representação ao Conselho Nacional da Juventude foi o primeiro a intervir, num espaço onde ao invés de levar as preocupações dos jovens angolanos, queimou o seu tempo a elogiar o trabalho do Presidente da República e do seu executivo, como se as coisas em Angola estivessem a correr às mil maravilhas, tendo no final, como era de se esperar de um ‘bom’ bajulador, pediu apoio de João Lourenço para a materialização do encontro nacional que o CNJ vai realizar.
Classe artística bem representada pelo general ‘Foge à Tempo’
Costa Vilola, o não menos conhecido humorista ‘Momó’ dos Tuneza, em representação da classe artística chamou a atenção ao Presidente da República para o facto de não se encontrar entre os angolanos, um único músico que tenha sido homenageado como herói, não obstante esta classe ter trabalhado arduamente para a efectivação da paz, bem como durante a luta de libertação do País, como acontece com a classe de políticos e militares.
Por outro lado, olhando para a realidade actual desta classe social, apelou ao incentivo de para o aumento das salas de cinema e alguma dignidade à classe dos artistas que continuam esquecidos.
UNITA: Sempre a retórica das autarquias...
O representante da UNITA, Agostinho Camuango, durante a sua intervenção, fez questão de lembrar ao chefe de Estado que as autarquias estavam agendadas para este ano e que, na sua perspectiva, Angola regrediu bastante no que aos direitos fundamentais dos cidadãos diz respeito.
JLo fala pela primeira vez sobre as manifestações
Em gesto de resposta para algumas questões levantadas pelos jovens, o Presidente falou pela primeira vez dos incidentes das últimas semanas, dos quais, um deles culminou com a morte do jovem Inocêncio de Matos, o chefe do executivo realçou que a manifestação não tem de degenerar em violência.
“Não há necessidade de nenhuma das partes, nem dos manifestantes nem das autoridades que têm obrigação de acompanhar as manifestações, mas é necessário que ninguém espolete estes momentos”, disse o Presidente, reforçando que “as autoridades não têm interesse nenhum em tratar mal o povo”.
No entanto, “tudo é relativo, depende do comportamento do cidadão”, continuou, declarando que “para o cidadão se manifestar não precisa de cometer excessos”.
João Lourenço expressou ainda a vontade de dialogar com a juventude: “Alguns dizem que é difícil lidar com a juventude, eu penso que não, até porque também já fui jovem. Nós conhecemos as formas de pensar, de sentir e de agir, o que muda as vezes é a conjuntura, no nosso tempo não havia manifestações, havia outra forma de fazer valer os nossos direitos”.
Numa das intervenções mais esperadas dos revús, o activista Banza Hamza questionou o Presidente da República sobre a fome que assola milhares de famílias do país, e convidou os partidos que começaram com a luta de libertação colonial a abandonar o poder, sublinhando o desgaste do maioritário.
Na resposta directa, o Chefe de Estado respondeu que os camaradas ainda não estão cansados, e para deixar o poder, só depende dos eleitores. Lourenço pediu que se aguarde até 2022 para ver se “vai gostar”, conforme soe dizer-se em alguns círculos.
Para o encontro de hoje foram convidados 19 representantes para intervir, entre os quais jovens empreendedores, dirigentes juvenis de formações políticas, activistas cívicos, artistas, desportistas e lideres associativos e religiosos.
Interpelado pelo dirigente da JPA (organização juvenil da coligação CASA-CE, oposição), Eduardo Garcia, que pediu a “intervenção imediata” do Presidente para que não haja mais mortes de jovens em manifestações, João Lourenço lamentou e sublinhou que “não deve haver mortes, pior ainda quando são causadas pela acção directa da polícia”.
Sobre a mais recente, de Inocêncio de Matos, em memória de quem foi feito um minuto de silêncio no início do encontro, afirmou que as autoridades estão preocupadas e que a Procuradoria-Geral da República já abriu um inquérito.
Garantiu ainda que foram dadas “instruções às autoridades para evitar ao máximo armas de fogo”, tendo sido utilizados jactos de água e gás lacrimogéneo “que são meios de persuasão usados por toda a polícia” em todo o mundo.
“A nossa posição é que a polícia deve sempre acompanhar a manifestação até para proteger a própria manifestação e para proteger o bem público”, bem como “manter a ordem e sempre que possível deve evitar excessos”, vincou.
“Lamentavelmente nem sempre é possível e isso é universal”, prosseguiu, apontando casos recentes em Berlim e os protestos dos “coletes amarelos” em Paris.
João Lourenço respondeu também ao líder da JURA, organização juvenil da UNITA (oposição), Agostinho Camuango, rejeitando recuos nas liberdades e garantias dos cidadãos.
“Se houvesse recuo nos direitos e garantias dos cidadãos não estaria nesta sala”, retorquiu, apontando também as tentativas de manifestação.
“Se as pessoas chegam a esse ponto é porque há mais liberdade”, comentou o chefe do executivo angolano, reforçando que existe também pluralidade de opinião, dando como exemplo o facto de a própria UNITA ter uma rádio.
Reis das manifestações fogem ao diálogo
Se para uns nesse encontro há mais bajuladores que jovens que representam a realidade e as reais preocupações dos jovens angolanos, por outro lado, há aqueles que olham para a fuga de Luaty Beirão, Domingos Palanga e tantos outros jovens revus, que apenas conseguem mostrar na rua que são fortes, mas que, nesta altura, do diálogo franco e aberto com aquele que pode, de facto resolver os problemas que tanto reclamam como um claro sinal de que, muitas vezes são instrumentalizados.
Neste sentido, alguns cidadãos questionam mesmo as razões que levaram estes jovens a declinarem o convite do Presidente da República para participar deste encontro, se o objectivo do mesmo é as preocupações dos jovens e evitar que jovens bajuladores puxem apenas a brasa para a sua sardinha como se diz na gíria.
Entretanto, pelo que viu e ouviu, com o Presidente a levar também um cartão amarelo, já que o objectivo era ouvir e anotar as preocupações dos jovens para resolver as questões que aflige esta franja da sociedade angolana, por sinal, a maior do País, uma vez mais, João Lourenço mostrou ser alguém que não acolhe bem as críticas, sendo que, de modo geral, gosta de responder as críticas e não limitar-se a ouvir e fazer uma instrospecção.
No final, João Lourenço saudou o encontro, e prometeu levar o diálogo com a juventude em outras províncias.











