Mortes ‘gratuitas’ em Cafunfo mancham festividades do 45° aniversário da Polícia Nacional
A Polícia Nacional comemora amanhã, dia 28 de Fevereiro, 45 anos de existência, num clima tenso onde, até ao momento, os ânimos entre a população e os homens da ‘farda azul’ continuam exaltados.
E não é para menos: A corporação diz em seis mortes, mas os partidos da oposição garantem que pelo menos 28 pessoas perderam a vida por disparos de arma de fogo na aldeia diamantífera de Cafunfo durante, um acto considerado pelas autoridades de rebelião armada contra uma esquadra policial e as organizações da sociedade civil de uma manifestação pacifica.
Por: Marlita Domingos
Durante a abertura das comemorações das festividades do 45° aniversário da corporação, o Comandante-Geral da Polícia Nacional de Angola, Comissário-Geral, Paulo Gaspar de Almeida, exortou, aos efectivos, maior rigor, dedicação e reflexão.
Embora as festividades desta organização castrense acontecem numa altura em que os ânimos continuam à flor da pele, com discursos inflamados das mais altas patentes e responsáveis máximos deste organismo, com principal realce para o Ministro do Interior, desta vez, um pouco mais comedido que o Comandante-Geral, é importante que estes 45 anos de existência seja um marco para, tal como o “número 1” da corporação disse aos efectivos recentemente, “as actividades festivas visam rememorizar o percurso histórico da Polícia Nacional durante os anos da sua existência”, sem esquecer contudo que, a PNA é uma instituição apartidária, incumbida da protecção e asseguramento policial do País, no estrito respeito pela Constituição e a lei, bem como pelas convenções internacionaisde que Angola seja parte.
Neste sentido, sem esquecer os demais episódios – maior parte deles – manchados com sangue de civis vítimas de actos excessivos dos agentes da autoridade policial, até em época de pandemia, onde a Polícia chegou a competir com a Covid-19 em número de vítimas mortais, é preciso que se faça de facto uma profunda reflexão no sentido de adoptar a corporação com ferramentas capazes de não seguir o diapasão da política, da qual muitas vezes é confundia a tomar partido.
Paulo de Almeida, na sua alocução, enfatizou que durante as comemorações da Polícia serão transmitidas várias experiências obtidas dos antigos comandantes e acções de carácter social e cultural que identificam a proximidade da Polícia com o cidadão.
Assim sendo, a pergunta que não se quer calar é a seguinte: “Hoje, por hoje, a nossa Polícia está a somar pontos no que a proximidade com o cidadão diz respeito ou está a se ver cada vez mais longe desse desiderato”?
Situação social das famílias: o rastilho que a Polícia acende
A Polícia Nacional, nos últimos tempos, tem sido apanhada em contramão em virtude da realização de manifestações um pouco por todo o país, com as “províncias ricas” a se juntarem ao naipe das mais insatisfeitas pelas condições sociais dos cidadãos, com maior realce para Luanda e Benguela, por sinal, as principais praças eleitorais do País, das quais, os partidos políticos procuram à todo custo tirar algum proveito.
Vozes de angolanos, cidadãos comuns e, até mesmo de algum ‘gabarito’ na sociedade têm mostrado o seu descontentamento pala forma como a Polícia tem estado a actuar nestas situações.
Como quem obedece a ordens superiores, quando a nossa constituição garante que existe a separação de poderes, a Polícia aparece a reprimir até manifestações ‘insignificantes’ que, se fossem realizadas não dariam sequer uma página de informação em jornais da nossa praça.
Ao intervir – com repressões e aparatos quase idênticos a cenários de guerra – a Polícia dá um ‘tiro’ no próprio pé e entrega o ‘ouro ao bandido’, oferecendo de bandeja largas horas em jornais internacionais e a sua imagem atirada na lama.
Especialistas em comunicação, embora reconhecerem que a Polícia Nacional é dos organismos castrenses que mais comunica, por um lado, por outro, algo deve estar a falhar na estratégia de proximidade que se quer.
Numa altura que se contam mais de 100 mil efectivos em todo território nacional, para uma população de cerca de 30 milhões de habitantes, a analogia com o passado, na visão de Paulo de Almeida, circunscreve-se nos objectivos e atribuições no papel e lugar da Polícia Nacional nas várias fases do seu crescimento.
Em gesto de conclusão, a mais alta patente da Polícia Nacional apelou, aos efectivos a elevarem o espírito de moral e sentido patriótico, de modos a serem capazes de enfrentar os desafios dos próximos 50 anos da Polícia Nacional de Angola.
Nota positiva no combate ao crime
Embora seja reconhecido um serviço melhor no combate ao crime, com o Serviço de Investigação Criminal (SIC), finalmente, a dar conta do recado, com detenções e apreensões de vulto, precisa-se melhorar a actuação da Polícia de Trânsito e de Ordem Pública onde, por sinal, a gasosa continua doce, sendo que agora trocaram as ‘latas de gasosa’ com os famosos ‘saldos’ no entendimento entre o polícia e os cidadãos.
Pelos vistos, Paulo de Almeida não está a conseguir encontrar a fórmula para fazer andar este seu cavalo de batalha assumido aquando da sua tomada de posse, em substituição do comissário Alfredo Eduardo Manuel Mingas ″Panda″ que, por ironia do destino, foi ‘obrigado’ a abdicar do cargo deixado por Ambrósio de Lemos devido a um aparatoso acidente de viação em que esteve envolvido e do qual resultaram duas mortes.
Entretanto, é importante que nos próximos anos, a Polícia Nacional consiga tirar a imagem daquela que mais vida tira aos cidadãos civis, e tornar-se naquela organização em que os angolanos se revejam e se sintam partícipes nas suas acções de combate e controlo da criminalidade e de segurança pública que ainda graça em Angola.











