‘Cemitério dos governadores’: Novo cargo de Chantre Luna pode significar queda aparatosa na política
Que Luanda é o ‘cemitério dos governadores’ isso não é novidade para ninguém. Tanto é que, também não era novidade a exoneração de Joana Lina, a ex-governadora de Luanda que entrou a ‘matar tudo e todos’, a dar tiros no escuro e que atingiram-lhe os próprios pés. As duas únicas novidades, nesta exoneração é que peca apenas por ser tardia e por ter sido nomeada uma outra mulher, ‘desconhecida’ da grande maioria e que poderá voltar a ter uma queda aparatosa em função das lutas titânicas de generais que Luanda tem.
Por: Marlita Domingos
Se a nomeação de Joana Lina era vista, por alguns analistas da nossa praça como "desajustada", tendo em conta os desafios eleitorais do MPLA, a dança das cadeiras na governação de Luanda é vista, por analistas, como um indicador de insegurança, tendo em conta que Luanda é a maior praça eleitoral do País com uma população estimada em cerca 8 milhões de habitantes.
Em quase quatro anos, a província de Luanda conta com o quarto governador, uma média de um, em cada ano, desde que João Lourenço assumiu a Presidência da República.
Depois de Adriano Mendes de Carvalho, Luther Rescova e Joana Lina, tida até então como "dama de ferro", vinda do Governo Provincial do Huambo, Ana Paula Chantre Luna de Carvalho acaba por ser, esta semana, a nova inquilina do "Palácio da Ingombota".
Nomeada em despacho presidencial, desta quarta-feira, 30, Ana Paula Chantre Luna de Carvalho, que vem da administração do território, chega à capital como a terceira mulher a chefiar a ‘nossa casa comum’, depois de Joana Lina e Francisca do Espírito Santo, e a vigésima quarta inquilina do Palácio da Ingombota, em 45 anos de independência.
Este será, de resto, um ‘baptismo de fogo’ para Ana Paula de Carvalho que pode ter como vantagem o conhecimento dos meandros do mapa de Luanda, mas na ‘capital dos generais’, terá de ter ‘tomates’ para bater de frente com as altas patentes que têm no abuso do poder a sua actuação diária.
A cidade de Luanda já teve a frente da sua gestão generais, comandantes, amigos de presidentes e tudo quanto se pode imaginar, mas ao fim e ao cabo, todos acabaram por cair na primeira ou na segunda esquina, sendo que, nem a "dama de ferro", como Joana Lina foi baptizada no Huambo, conseguiu segurar o leme da "insustentável" cidade capital e "cemitério" dos políticos, em função dos problemas sociais e interesses económicos que gravitam em torno da sua governação.
Aliás, não é à toa que Bento Bento chegou a atirar a toalha ao tapete em função de ingerências políticas – entre camaradas do mesmo partido – na sua governação enquanto edil de Luanda.
Governação musculada, ‘trungungu’ e muito lixo: As razões da queda da ‘dama de ferro’
Com um consulado bastante contestado por uns, principalmente pelos partidos da oposição na província do Huambo, e apoiado por outros, Joana Lina que chegou a interromper o círculo de governação masculina no Planalto Central, que durava há 43 anos, entrou em Luanda a ‘matar’, como se diz na gíria.
‘Disparou’ contra as empresas de recolha de resíduos sólidos encarregues de limpar acidade de Luanda, cujos resultados estamos todos a sentir hoje: um surto de malária, acrescido de números assustadores de mortes nos hospitais, derivado da acentuada degradação do saneamento básico, fruto dos amontoados de lixo que ainda adornam a cidade de Luanda.
Será que a nova edil de Luanda terá estômago para limpar o rosto sujo de Luanda?
Esta é, de resto, a pergunta que não se quer calar, em função de ser preocupações reais do legado de Joana Lina, que entrou com tudo pela porta da frente sem medir as consequências, antes de mandar as empresas de saneamento para casa, e atirar Luanda para uma pocilga durante meses, o que propiciou a actual situação em que a cidade da Kianda está atirada.
Ontem, como o azar não vem só, saiu ‘de fininho’ pela por dos fundos do Palácio da Mutamba, no Largo Irene Cohen, depois dos seus mais pontos baixos do que altos, muitas vezes apontada como uma mulher mais dedicada aos interesses do partido do que propriamente à governação.
De acordo com algumas fontes, mesmo na província do Huambo, que em tempos idos já chegou a ser considerada a mais industrializada do País, a contestação levou alguns círculos políticos e da sociedade civil, a solicitar, ao Presidente da República, a sua exoneração, não obstante a sua longa e notória passagem na casa das leis, a Assembleia Nacional angolana, onde ocupou o cargo de primeira-vice-presidente.
Governar Luanda não é para todos
Como se diz na gíria, governar a cidade de Luanda não é para todos. Aliás, é como que participar numa “corrida de fundo com barreiras”, em função da complexidade e da dimensão dos problemas que a urbe carrega.
Por congregar no seu seio todos os poderes de decisão do país, este aspecto tem sido encarado por alguns sectores da sociedade como a verdadeira “pedra no sapato” das figuras que foram, até agora, chamadas a governar Luanda.
Por meio alguma interferência do Governo Central, quer na adjudicação de projectos estruturantes, quer na implementação prática de algumas políticas especificamente concebidas para esta província, a verdade é que foram os governadores que acabaram por assumir o ónus da questão.
Apesar de ser um cargo muito cobiçado por membros da nomenclatura política, este posto funciona como uma “faca de dois gumes”, na medida em que dá muita visibilidade, mas também pode ser visto como a “morte anunciada”, do ponto de vista político, a julgar pelo desgaste da imagem já que a cada dia que passa crescem os problemas e as soluções, estas, tardam a surgir.
O que mais joga a desfavor dos governadores de Luanda são os interesses em jogo, o que torna difícil concilia-los, já que é aqui onde residem “os pesos pesados da política ”.
Por mais que tentam evitar, acabam sempre, os governadores de Luanda, por chocar com interesses estabelecidos, o que dificulta imenso o seu exercício.
Por isso, a província de Luanda teve um total de 24 entidades que a administraram, cuja designação iniciou com a de Comissário Municipal de Luanda, mais tarde Comissário Provincial e, por último, Governador, tendo por meio sido dirigida também, em duas ocasiões, por Comissões de Gestão.
Cada uma das distintas personalidades que administrou Luanda teve o seu percurso, a sua história, a sua marca e devido a vários factores, cada um deles foi “apeado” do cargo, à medida da dimensão dos problemas vividos na época, muitos dos quais se arrastam até aos dias de hoje.
Lixo, ruas esburacadas, falta de energia eléctrica, deficiente saneamento básico, falta de água, ocupação desordenada de terrenos, delinquência juvenil, perda de valores cívicos e morais, construções José Meireles anárquicas, trânsito caótico, são os principais problemas existentes em Luanda, desde há muitos anos, cujas soluções são cada vez mais uma incerteza.
Por causa destes e de outros problemas conjunturais, reza a história que qualquer das entidades que passaram por Luanda, tiveram pouco menos de dois anos à frente dos destinos da província.
No cômputo geral, Aníbal Rocha, tido como o melhor governador que Luanda já teve, foi a excepção de todos, cujo mandato foi de cinco anos consecutivos.











