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Oposição ganha terreno em África: MPLA sob (sério) aviso

Oposição ganha terreno em África: MPLA sob (sério) aviso


Depois da tomada de posse esta terça-feira, em Lusaka, num estádio lotado, o líder da oposição Zambiana, Hakainde Hichilema a par de Umaro Sissoco Embalo na Guiné-Bissau, Félix Tshissekedi, na República Democrática do Congo e Correia e Silva que repetiu a proeza em Abril de 2021 em Cabo Verde, situação que, por um triz, teria acontecido também na Guiné-Conacry onde Alpha Condé, de 82 anos, voltou a ser reeleito ao cargo que ocupa desde 2010 para um terceiro mandato que deram origem a meses de manifestações duramente reprimidas e que resultaram em dezenas de mortes de civis os partidos na oposição em África estão a ganhar bastante terreno e a destronar os partidos governantes, muitos dos quais, que terão conquistado as suas independências.

Por: Patrícia da Silva

Em Angola, estes cenários podem parecer distantes mas carregam consigo bastante significados na medida em que há forte contestação nas políticas públicas gizadas pelo Executivo do actual Presidente João Lourenço e uma forte manifestação de apoio a Frente Patriótica da oposição onde Adalberto Costa Júnior, Presidente do maior partido da oposição angolana, tem ganhado bastante apoio e simpatia dos jovens num movimento que conta com outro ‘peso pesado’ da política angolana, Abel Epalanga Chivukuvuku que, depois de já ter criado a coligação eleitoral CASA-CE e ter conseguido duplicar o número de deputados em duas legislaturas, encontrou entraves para a legalização dos seus novos projectos políticos, tendo o último, o PRA-JÁ Servir Angola, sido inviabilizado pelo Tribunal Constitucional.

Na sua visão, este expediente do TC decorreu sob fortes influências políticas e não jurídicas, facto que tem ganhado bastante apoio em função de um pedido de impugnação que corre os seus trâmites no TC contra Adalberto Costa Júnior, por sinal, despoletado por militantes que nem sequer foram candidatos as eleições no ‘Galo Negro’.

A juntar-se ao líder da UNITA e ao considerado ‘monstro ou animal político’ Chivukuvuku estão Justino Pinto de Andrade que ‘cedeu’ a Presidência do Bloco Democrático a Filomeno Vieira Lopes que, embora estejam com os cordões umbilicais ligados a antiga CASA de Abel, resolveram aliarem-se a Frente Patriótica como forma de colocar o MPLA na oposição em 2022.

Todavia, a pergunta que não se quer calar é a seguinte: Terá a oposição angolana forças para seguir as peugadas dos partidos políticos da oposição em África, cujas lideranças estão a destronar os partidos das independências?

Eleitores mais jovens podem fazer a diferença

Para alguns analistas angolanos, esta situação, decorre do facto de termos em África eleitores mais jovens cujos argumentos da guerra ficaram para trás.

“Os jovens hoje têm as redes sociais e os órgãos de comunicação social privados como alternativa as possíveis inverdades que os partidos no poder apresentam como situações contra os seus adversários políticos. Isso faz com que não caiam mais naqueles discursos falaciosos”, explicou, Aurora Madalena, especialista em relações internacionais.

Na visão dessa especialista, os jovens hoje querem emprego, comida na mesa, serviços sociais básicos e melhores condições de vida.

“Quem lhes proporcionar isso, poderá, certamente, granjear a sua simpatia. Mas não da forma como tem sido feito em Angola, onde as promessas eleitorais são equidistantes do cumprimento ou são megalômanas onde cada cidadão já sabe que o partido que as apresenta não poderá cumpri-las”, sublinhou, apontando, por exemplo algumas promessas que maior eco fez na política angolana.

“O MPLA, por exemplo, já prometeu um milhão de casas, a transformação de Benguela em California e 500 mil empregos. Enquanto partido no poder, com todos os recursos à sua disposição, não conseguiu materializar essas promessas eleitorais que seriam subsídios suficientes para mais um voto de confiança”, apontou.

Por outro lado, garante, é para esquecer candidatos que mesmo não estando no poder apregoam que podem fazer isso ou aquilo.

“Quintino Moreira, da Aliança Patriótica Nacional (APN), por sua vez, não sabemos se queria copiar o MPLA, ou quem copiou um pouco o discurso do outro, prometeu um milhão de empregos – mais do que metade prometidos pelo partido no poder -, transformar a província do Namibe em Dubai e baixar para 10 mil kwanzas mensais o preço da renda nas centralidades.

Já a UNITA, da sua cartola de promessas a mais sonante era a de aumentar o salário mínimo nacional para o equivalente em kwanzas a 500 dólares (83 mil ao câmbio de 2017, numa altura que o salário mínimo oscilava entre 16.500 e 24.754 kwanzas.

Zâmbia: A sexta foi de vez!!!

Após seis tentativas incansáveis, Hakainde Hichilema, alcança finalmente o poder na Zâmbia com quase um milhão de votos e uma participação de 71% à frente do presidente cessante Edgar Lungu, para um mandato de cinco anos após ter vencido as eleições gerais na semana passada.

O ex-presidente Edgar Lungu, que agora perde a Presidência da República onde esteve desde 2015, prometeu que não vai contestar os resultados para permitir uma transição política tranquila na Zâmbia, dando abertura para um novo horizonte para os Zambianos e um exemplo de democracia para os demais países africanos.

Tshisekedi destrona Kabila

A comissão eleitoral da República Democrática do Congo (RDC) declarou, em 2019, que Felix Tshisekedi, um dos candidatos da oposição, venceu as eleições presidenciais daquele País vizinho de Angola.

Tshisekedi recebeu mais de sete milhões de votos, contra os mais de seis milhões arrecadados por outro candidato da oposição, Martin Fayulu, e pelo candidato apoiado pelo partido do Governo, Emmanuel Ramazani Shadary, que obteve mais de quatro milhões de votos.

Contudo, embora não tenha concorrido à sua própria sucessão Joseph Kabila viu continuava com os tentaculos na governação do seu sucessor depois da sua coligação, a Frente Comum pelo Congo (FCC), ter conquistado uma grande maioria de assentos na Assembleia Nacional, reduzindo, deste modo, as hipóteses de reformas profundas pelo vencedor da eleição presidencial, o líder da oposição Felix Tshisekedi. 

Guiné Bissau: Angola ‘derrapa’ em apoio ao candidato vencido

Tal como na Zâmbia, na Guiné Bissau, o ex-primeiro-ministro Umaro Sissoco Embalo, candidato de um partido da oposição foi eleito presidente deste país da África ocidental com 53,55% dos votos na segunda volta das presidenciais.

Domingos Simões Pereira, também ex-primeiro-ministro e presidente do maior partido do país, o PAIGC, obteve 46,45% dos votos depois de uma digressão por alguns países da região, entre eles, Angola em busca de apoio para a sua re-candidatura.

Embalo, de 47 anos, conseguiu compensar os 12 pontos que o seu adversário tinha de vantagem na primeira volta algo inédito em África, na medida em que, os partidos que lideram os governos tendem a perpetuar-se no poder por tudo e por mais alguma coisa.

Angola, entretanto, quase que criou um cenário menos abonatório para a política externa ao posicionar-se contra o Presidente eleito Umaro Sissoco Embalo e a favor de Domingos Simões Pereira.

Este cenário criou uma crispação entre ambos os Presidentes, sendo que, Umaro Sissoco Embalo chegou a atirar ‘farpas’ contra o Presidente João Lourenço chamando-o de ingrato e visitando o ex-Presidente José Eduardo dos Santos – ‘exilado’ – em Espanha por supostos motivos de saúde.

Cabo Verde repete a proeza por duas vezes

Cabo Verde foi um dos primeiros países a demonstrar que os partidos que alcançaram as independências pouco ou nada mais trazem de novo para os seus cidadãos.

No arquipélago, o Movimento para a Democracia (MpD), partido no poder pela segunda vez, voltou a vencer as eleições legislativas e Ulisses Correia e Silva foi reconduzido a um segundo mandato como primeiro-ministro.

Janira Hopfer Almada, líder do PAICV, cujo partido estava no poder nos dois mandatos anteriores, voltou a ficar na oposição.

Hopfer Almada, entretanto, ao perder a sua segunda eleição apresentou a sua demissão a frente do partido deixando lugar para outros que possam catapultar o Partido da Independência de Cabo Verde outra vez ao poder onde, digamos em abono da verdade, continua a ser um pouco difícil em função da realidade actual das lideranças africanas e também dos eleitores africanos, composto na sua maioria por jovens que não se prendem com argumentos de guerra e do passado.

Entretanto, a seguir esse percurso e essa lógica, o MPLA tem de fazer uma reviravolta num ângulo que pode ser considerado de 360 graus para voltar a merecer a confiança dos angolanos já que, convenhamos, tem o lugar de partido no poder ameaçado e a um fio de perder as eleições gerais e legislativas caso elas ocorram sem aquilo a que os partidos na oposição chamam, de manobras políticas para se perpetuar no poder.

Todavia, em representação do Chefe de Estado angolano, João Lourenço na Zâmbia, o Vice-Presidente da República, Bornito de Sousa, elogiou, a transição pacífica de poder ocorrida na Zâmbia, com a investidura do novo Chefe de Estado, Hakainde Hichilema.

Bornito de Sousa lembrou que não é a primeira vez que ocorre alternância política na Zâmbia, sublinhando que, em qualquer dos casos, a constante tem sido a manutenção de uma boa relação entre os dois Estados, partidos e Governos ao longo do tempo.

Entre os Chefes de Estado africanos presentes no acto intervieram os Presidentes da República Democrática do Congo e da União Africana, Félix Tshisekedi, e do Malawi e SADC, Lázaro Chakwera.

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