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731milhões de dólares: MPLA não perdoou  ‘pecado capital’ de Júlio Bessa

731milhões de dólares: MPLA não perdoou  ‘pecado capital’ de Júlio Bessa


No Cuando Cubango, longe dos holofotes e das grandes realizações, com quilómetros de distâncias do Poder Central, o mar parecia calmo para o agora governador ‘demito’ Júlio Bessa, até caucionar uma dívida de milhares de dólares, de uma empresa que agora diz-se que nunca mexeu palha alguma para realizar qualquer obra naquela província.

Por: Osvaldo de Nascimento

Depois de não ser reconduzido nas conferências de renovação de mandatos no âmbito da preparação do VIII Congresso Ordinário do MPLA, era fácil calcular que um mar de azar se apressava para a beira de Júlio Bessa, enquanto José Martins esfregava as mãos de contente, tendo caminho aberto para candidatura única ao cargo de primeiro secretário do MPLA nas “terras do fim do mundo”.

O silêncio do Bureau Político  do MPLA mostrava o isolamento a que Bessa estava remetido, era a machadada final para o jovem político, mesmo depois de a PGR, em comunicado, desmentir que exista qualquer processo em curso contra o antigo homem-forte do Cuando Cubango. E quando já esperava, pelo menos aos mais atentos, o Presidente da República, João Lourenço, exonerou ontem, terça-feira, 23,  Júlio Bessa  do cargo de governador da província do Cuando Cubango.

De acordo com uma nota da Casa Civil do Presidente da República, em outro decreto, o Chefe de Estado nomeou José Martins para o cargo de governador do Cuando Cubango.

O PECADO CAPITAL

Na origem da queda do político dos camaradas, está uma dívida de 439,552 mil milhões de kwanzas (mais de 731 milhões de dólares), reconhecida pelo governo do Cuando Cubango a favor da empresa Angoskimas, esteve na origem de várias denúncias chegadas a órgãos de comunicação social, sobre suspeitas de uma tentativa de desvio de fundos públicos.

Publicados, em primeira mão, na página de internet do jornal ‘Folha 8’, os documentos que suportam as denúncias estão assinados pelo governador do Cuando Cubango, Júlio Marcelino Vieira Bessa, e pelo secretário-geral do governo provincial, Edgar Xisto Vieira Catito, e declaram o reconhecimento da dívida referente “ao fornecimento de bens diversos e géneros alimentícios” ao governo local, relativos aos exercícios económicos de 1992,1993 e 1997.

Na acta de reconhecimento de dívida, elaborada na sequência de uma reunião entre o governo do Cuando Cubango e a empresa Angoskimas, ocorrida a 16 de Junho de 2021, as partes concluíram um apuramento 439.552.312.379,07 kwanzas, ao contrário do valor anteriormente calculado de 2.996.514.112.475 kwanzas (4,994 mil milhões de dólares), um corte de 85%. Em termos comparativos, os 4,994 mil milhões de dólares anteriores cuja validação é atribuída a “gestores anteriores” não especificados é praticamente o equivalente à capitalização total do Fundo Soberano de Angola, antes da sua descapitalização pelo Governo de João Loureço.

E é superior em 529 milhões de dólares ao total do financiamento acordado com o Fundo Monetário Internacional, no âmbito do Programa de Financiamento Ampliado, fixado em 4,465 mil milhões de dólares.

A queda abrupta do valor da dívida é justificada, entretanto, nos documentos com “erros de cálculo” em algumas facturas dos exercícios de 1992 e 1997 de um produto identificado como ‘napa plástica’.

Contactados pelo Valor Económico, vários antigos gestores do Cuando Cubango não só garantiram desconhecer a dívida como asseguram não terem conhecimento de qualquer empresa designada Angoskimas que tenha fornecido serviços às autoridades locais em qualquer período, muito menos na década de 1990. “Angoskimas? Nunca ouvi falar na existência de tal empresa na província”, declara, estupefacto, um governante local, sublinhando que a dívida em questão nunca foi escrutinada pelos malogrados governadores Domingos Hungo e Jorge Biwango, como também não aconteceu nos mandatos de Manuel Dala, João Baptista Tchindandi, Eusébio de Brito Teixeira, Higino Carneiro e Ernesto Kiteculo.

“Cabe ao máximo gestor da província avançar com os detalhes para dissipar dúvidas na medida em que, em sede das reuniões do governo local, se não estou equivocado, nunca nos foi prestada alguma informação relacionada com esta dívida, envolvendo somas avultadas”, detalha o governante.

Vários empresários originários do Cuando Cubango e que dominam a realidade empresarial da província desde a década de 1990 também juram nunca terem ouvido falar da Angoskimas.

“Percebe-se, desde logo, que há qualquer coisa muito errada. Pelos valores iniciais referidos, ou seja, quase 5 mil milhões de dólares é quase uma loucura. E mesmo que baixados para 700 milhões de dólares não deixa de ser de loucos. Se nos anos de bonança ninguém fez negócios a este nível com o governo local, como é possível que, na década de 1990, uma única entidade tenha feito negócios deste tipo no Cuando Cubango? É um tremendo embuste”, caracteriza um empresário local.

Governante e empresários lembraram ainda o facto de a capital da província, Menongue, ter estado “sitiada” na primeira metade da década de 1990, o que fazia com que fosse “praticamente impossível” negócios à escala dos montantes acordados entre o governo local e a empresa.

C/Valor Económico

 

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