Solidariedade à beira da sepultura: Só Zé Maria e Boavida Neto honraram Dos Santos
Abandonado e humilhado até à exaustão - Zé Dú passou de bestial à besta. Até há cinco anos, José Eduardo dos Santos era um dos Presidentes de África mais idolatrado, que chegou a transformar Angola numa placa giratória da diplomacia africana, com passagem de vários líderes mundiais.
Por: Lito Dias
Hoje, porém, há cinco anos fora do poder, parece haver uma campanha silenciosa, mas visível de 'apagar' os seus feitos, que impactaram positivamente na vida nacional e de cada dirigente do MPLA, sem excepção
As mesmas pessoas que consideravam José Eduardo dos Santos (JES) um humanista, arquitecto da paz, irmão de Jesus Cristo, enviado de Deus, homem especial sem igual, entre outras qualidades e atribuições, são as mesmas que o ostracizam dos bons momentos que o partido no poder viveu.
Para isso, bastou deixar o poder voluntariamente, em 2017, para hoje ser considerado vilão, uma pessoa de quem já não se pode falar, salvo pela negativa, como se de uma directiva se tratasse.
Era notório, e ainda é, que depois de João Lourenço assumir o poder, o MPLA ficou dividido em dois, havendo uma ala eduardista ou de marimbondos e a outra de reformistas, alinhados com o actual presidente.
Nem mesmo os "homens do presidente", na era de JES, como Kopelipa, Higino Carneiro e a cúpula de generais, Bento Bento (autor do célebre slogan: O Presidente Dos Santos é um homem especial), Adão de Almeida, Bornito de Sousa, só para citar estes, se levantaram para defender ou, pelo menos exaltar a figura de JES.
Boavida Neto, ex-governador do Bié é um caso à parte. Aliás, é o único que publicamente honrou a memória do ex-presidente da República.
A ele se junta o antigo responsável da secreta militar, General na reforma, Zé Maria, embora este o tenha feito apenas depois de sentir a mão pesada da justiça.
Hoje, nas comunidades, a maioria diz que no tempo de JES o nível de vida era alto, se comparado com a realidade actual.
"Éramos felizes, mas não sabíamos", é a expressão comum.
Na prática, as pessoas sentem no seu dia-a-dia este fosso existente nas duas presidências.
Mas há quem diga que a vida que se levava antes de 2017 "era anormal"; muitos cidadãos tornaram-se ricos de forma ilícita, do mesmo modo que alguns cidadãos tornaram-se pobres injustamente.
Curioso é saber que a maioria dos governantes angolanos enriqueceu-se de qualquer maneira, mais ainda reclamam.
Ou melhor, queriam mais do que obtiveram. O caso Lussaty, cujo julgamento arrancou esta terça-feira, 28 de Junho, é prova inequívoca de como o país era gerido por JES.
A ser conduzido como se deseja, vai permitir aferir como o banquete era servido e quais são os seus promotores.
Tal como disse recentemente o empresário Francisco Viana, o MPLA não pode dizer que não conhece José Eduardo dos Santos.
Ainda que se pretenda cilindrar os defensores do ex-presidente, as contas do MPLA, quem vai pagar chama-se João Lourenço, "que recebeu os activos e os passivos da anterior governação".
Solidariedade à beira da sepultura
Nos últimos dias, o estado de saúde de JES agravou-se, a partir mesmo da clínica onde está internado, em Barcelona.
A partir terça-feira, circularam em certa imprensa internacional e retomadas pela mídia angolana informações segundas as quais, o estado de Saúde do "arquitecto da paz em Angola", agravou-se, tendo o Chefe de Estado, João Lourenço, enviado com máxima urgência à Barcelona o ministro das Relações Exteriores, Téte António.
A aparente solidariedade, que não existiu durante os meses que andou praticamente nas mãos dos médicos, surge na sequência das complicações de forma irreversível do estado de saúde de JES.
Segundo fontes deste jornal, para quem sabe como funciona o ser humano, as chances de José Eduardo dos Santos sobreviver desta crise são remotas.
Estás informações associam-se a outras segundo as quais, os resultados dos exames de tomografia realizados esta segunda-feira dão conta de graves lesões isquémicas no cérebro, que ainda não tinham sido detectadas.
No final da semana passada, o ex-chefe de Estado sofreu uma queda na sua casa na capital catalã, onde vivia desde Abril de 2019, e estava desde então internado e em coma induzido na unidade de cuidados intensivos do Centro Médico Teknon, em Barcelona.











