MPLA em Luanda e UNITA em Benguela dão o tiro de largada para o pleito eleitoral
O candidato do MPLA às eleições gerais de 24 de agosto apelou ontem os angolanos a votarem no partido para vencer o acto eleitoral, “a melhor forma de honrar a memória do presidente José Eduardo dos Santos”.
João Lourenço, líder do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA, partido que governa o país desde a independência, em 1975) começou ontem o seu discurso de lançamento da campanha eleitoral, na Camama, Luanda, enaltecendo os feitos do antigo presidente do partido, que morreu no dia 08 de Julho, em Barcelona, Espanha.
Segundo João Lourenço, o lançamento da campanha ocorre num momento em que os militantes do MPLA e de forma geral os angolanos “ainda sentem a dor do desaparecimento físico do camarada presidente José Eduardo dos Santos”.
“Nosso presidente emérito, um grande filho de Angola, que dedicou toda a sua juventude e muitos anos de governação em momentos muito difíceis que o nosso país atravessou, mas soube dirigir o país com sabedoria e, sobretudo, acabar com a guerra que ameaçava destruir o nosso país”, referiu.
O líder do MPLA, que concorre a um segundo mandato, salientou ainda que a José Eduardo dos Santos os angolanos devem “a paz e a reconciliação” que o país vive já há 20 anos “e que é um bem precioso” para o desenvolvimento do país.
“Aproveito esta oportunidade para salientar o civismo e o respeito demonstrado pelos angolanos de uma forma geral e por todos aqueles estrangeiros que se quiseram juntar à nossa dor, durante os cerca de sete dias que decorreram as homenagens ao presidente José Eduardos dos Santos”, frisou.
“Mas a vida continua, a maior alegria dele será ver o seu MPLA ganhar estas quintas eleições gerais em Angola. Esta é a melhor forma que temos de honrar a memória do presidente José Eduardo dos Santos”, acrescentou.
José Eduardo dos Santos, que governou Angola de 1979 a 2017, morreu, no dia 08 de Julho, com 79 anos, em Barcelona, Espanha, onde passou a maior parte do tempo nos últimos cinco anos.
Duas facções da família dos Santos disputam, na Vara de Família do Tribunal Civil da Catalunha, quem ficará com a guarda do corpo de José Eduardo dos Santos.
De um lado, está Tchizé dos Santos e os irmãos mais velhos, que se opõem à entrega dos restos mortais à ex-primeira-dama e são contra a realização de um funeral de Estado antes das eleições para evitar aproveitamentos políticos.
Do outro, está a viúva Ana Paula dos Santos e os seus três filhos em comum com José Eduardo dos Santos, que reivindicam também o corpo e querem que este seja enterrado em Angola nos próximos tempos.
Esta pretensão é apoiada pelo Governo angolano que anunciou a intenção de fazer um funeral de Estado, mas teve de se contentar com sete dias de luto nacional e um velório sem corpo, enquanto a disputa prossegue nas instâncias judiciais, a quatro dias do início da campanha para as eleições gerais, tornando-se num facto político que está a marcar a corrida eleitoral.
Em entrevista na semana passada a meios de comunicação social angolanos, o ministro de Estado e chefe da Casa Militar do Presidente da República, que lidera a delegação que representa o Estado angolano, general Francisco Furtado, mostrou-se confiante num desfecho favorável, salientando que os cidadãos angolanos e a comunidade internacional querem ver “o problema resolvido”.
“Toda a Nação angolana quer a presença do seu antigo líder no país para lhe render a merecida homenagem”, disse Francisco Furtado, sublinhando que se as autoridades espanholas tiverem em conta as razões que levaram o ex-Presidente a Barcelona “não haverá outro desfecho que não seja o regresso do corpo para Luanda”.
A campanha eleitoral para as quintas eleições gerais angolanas, que se realizam em 24 de agosto, começou hoje oficialmente.
UNITA em Benguela
O presidente da UNITA evocou este sábado os “pais da nação”, prometendo cumprir o ideal de construir a pátria angolana e pediu um debate entre os candidatos presidenciais.
Adalberto da Costa Júnior, que marcou ontem o arranque da campanha eleitoral em Benguela, chegou ao local do comício perto das 15:00 após ter percorrido a pé cerca de 5 quilómetros, ladeado dos nº2 e nº3 das listas da UNITA, Abel Chivukuvuku e Justino Pinto de Andrade, respectivamente, uma comitiva que foi acompanhado por milhares de pessoas.
Cantando e entoando “gatunos fora” e “MPLA caiu”, os militantes e simpatizantes da UNITA seguiram os três políticos numa caminhada festiva, em tons de verde e vermelho — as cores da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) -, que encheu as ruas de Benguela com uma enorme massa humana e terminou no campo adjacente ao aeroporto.
Numa intervenção com mais de uma hora, Adalberto da Costa Júnior recordou o fundador da UNITA, Jonas Savimbi, e o seu sonho de realizar a pátria angolana, mas destacou que este era também um projecto de Holden Roberto, fundador da FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola), e do primeiro presidente de Angola, Agostinho Neto, do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), partido que governa o país desde a independência.
“Três pais da nação” que, sublinhou, “pensaram numa Angola para os seus filhos, uma Angola de dignidade, de riquezas e de oportunidades”, prometendo resgatar os ideais que “foram esquecidos e perdidos”, assumindo a “missão de realizar a pátria mãe de todos os angolanos”.
No discurso repetiu as críticas à comunicação social angolana pública devido à parcialidade na cobertura eleitoral, salientando que “há um partido que teve transmissão directa dos seus comícios”, ao contrário dos outros partidos que também marcaram acto para hoje (ontem).
“Esperei que não houvesse mais diferenciação com o início da campanha, mas afinal enganei-me, afinal há partidos que são mais do que outros?”, questionou o dirigente do “Galo Negro”.
Vincando os apelos à alternância, o presidente da UNITA disse que “já não é tempo de promessas, é tempo de balanços”, tendo em conta que o país é independente há 47 anos, e lamentou a degradação do estado democrático e de direito e a diminuição das liberdades, nos últimos cinco anos, coincidindo com o mandato de João Lourenço, que se recandidata ao cargo.
O líder da UNITA apontou também os “parentes e amigos mortos” que estão na lista para votar, avisando que o partido está atento e estimando que há mais de 2,5 milhões de pessoas falecidas que constam como eleitores.
“Desde 1996 que não se faz a depuração dos mortos nas listas. Querem enganar quem? Vão aceitar ir as eleições com essas listas?”, perguntou Adalberto da Costa Júnior, pedindo aos milhares de militantes e simpatizantes que hoje assistiram ao comício que ajudem nesta verificação e tomem conta da segurança do voto, “organizadamente”.
Frisando a necessidade “de um país diferente com uma liderança comprometida em servir o país”, Adalberto da Costa Júnior ironizou com a construção da Basílica da Muxima, anunciada esta semana pelo presidente angolano, que acusou de estar a tentar “comprar” a igreja.
Alertou ainda para o facto de o governo estar em gestão, uma vez que, com o início da campanha eleitoral para as eleições marcadas para 24 de agosto, o Presidente angolano “não pode assinar nada”, nem fazer “os contratos simplificados que financiam o seu partido”.
Apontou também a necessidade de assegurar que a campanha decorre em ambiente pacífico, de tolerância e de harmonia, insistindo em que se ignorem as provocações.
“Onde te provocarem, vai embora, onde virem uma emboscada, vai embora, não é atitude de cobardia, é de inteligência”, salientou o dirigente durante a intervenção, onde insistiu nos apelos do não à violência.
Adalberto da Costa Júnior repetiu as ideias de que vai “governar para todos, os que votaram e não votaram”, saudando na recta final do discurso “todos os partidos e lideranças” que entram agora em campanha eleitoral, deixando o convite à realização de debates entre todos os candidatos, que considerou um dever.
“Os cobardes fogem, vamos punir os cobardes, não estão à altura do seu povo maravilhoso. Nós não temos medo, nós estamos seguros do apoio do povo”, disse Adalberto da Costa Júnior, que foi aplaudido com entusiasmo.
Os sete partidos e a coligação que se candidatam às próximas eleições gerais realizaram hoje comícios e actos políticos para marcar o arranque da campanha eleitoral, em diferentes pontos do país.
Além da UNITA, em Benguela, o MPLA realizou o seu comício em Luanda, a coligação CASA-CE, terceira força política do país, no Cuanza Norte, o PRS na Lunda Norte, o P-NJANGO no Huambo, o Partido Humanista de Angola no Namibe e a FNLA em Luanda.
Este será o quinto sufrágio em Angola, depois dos de 1992, 2008, 2012 e 2017, em que o MPLA foi vencedor.
C/Lusa











