Putin quer impôr sua vontade a Angola e envia Sergey Lavrov para “convencer” João Lourenço
O ministro dos Negócios Estrangeiros da Federação Russa, Sergey Lavrov, visita Angola nos dias 24 e 25 de Janeiro corrente. Entre outras actividades, o governante russo va encontrar-se, em Luanda, com o seu homólogo, Téte António, e posteriormente com o Presidente João Lourenço a quem vai transmitir um “recado” de Vladimir Putin
Mbinza Dikoza
A visita de Sergei Lavrov a Angola, proveniente da África do Sul, onde foi tentar, igualmente, convencer o Governo daquele país a apoiar os esforços de guerra da Rússia contra a Ucrânia, apesar do que está a ser divulgado oficialmente, visa sobretudo apresentar a preocupação do Presidente russo Vladimir Putin, sobre um certo arrefecimento nas relações entre os dois países e a intenção de Angola reforçar laços com os Estados Unidos da América (EUA).
Instalou-se no Governo da Rússia um clima de preocupação pela possível perda da “galinha dos ovos de ouro” que tem sido Angola ao longo de cerca de cinco décadas, desde que Angola posicionou-se contra a invasão russa na Ucrânia e a anexação de territórios, bem como a recente visita do Presidente João Lourenço aos EUA, onde manifestou interesse na colaboração americana em diversos domínios, incluindo o militar, com possível fornecimento de material e equipamento a Angola, no âmbito da reestruturação das Forças Armadas Angolanas (FAA).
De acordo com a actual posição de Angola, de afastar-se da política de agressão da Rússia que invadiu a Ucrânia, país vizinho, influenciou sobremaneira na pretensão de se usar equipamento militar do ocidente face ao novo paradigma mundial, em que a maioria dos países estão a deixar de usar a tecnologia russa.
Na altura, o Presidente João Lourenço disse: “Nós queremos ver os EUA a participar no nosso programa de reequipamento das Forças Armadas Angolanas. Reequipamento militar, e como sabem, nós, até hoje, as FAA têm apenas a chamada técnica soviética, e nós entendemos que é chegado o momento de darmos o salto para rearmamos as nossas forças armadas com equipamento da NATO, e olharmos para os EUA como o parceiro ideal para nos ajudar a fazer essa transição”.
Esta posição inquietou Vladimir Putin que, no seu jeito dominador, não quer admitir que Angola se afaste da Rússia e enviou o ministro dos Negócios Estrangeiros para convencer (impor) o Chefe de Estado angolano para não deixar de cooperar com a Rússia e continuar a comprar equipamento militar ao seu país.
O Presidente russo está convencido de que Angola não pode deixar de adquirir equipamento militar para as FAA no seu país, porque, no seu entender, a cooperação neste domínio existe há cerca de cinquenta anos e sempre foi estável.
A visita de trabalho do ministro dos Negócios Estrangeiros da Federação Russa acontece numa altura em que Angola, após posicionar-se de forma neutra perante a guerra na Ucrânia, abstendo-se de votar em Março passado uma resolução das Nações Unidas condenando a invasão russa, em Outubro, juntou-se à maioria dos países que condenaram a anexação de territórios ucranianos pela Rússia.
Angola tem-se reposicionado nos últimos meses em termos de política externa, aproximando-se dos Estados Unidos da América e da União Europeia, e distanciando-se da Rússia.
Em meados do corrente mês de Janeiro, João Lourenço disse que é hora de negociar a paz na Europa, voltando a apelar a um cessar-fogo definitivo e incondicional por parte da Rússia para criar o “necessário ambiente negocial” entre as partes.
O chefe de Estado angolano apontou a guerra na Ucrânia como “uma séria ameaça à paz e segurança” da Europa e do mundo, provocando a maior crise energética, alimentar e humanitária desde a Segunda Guerra Mundial.
Assim sendo, tendo chegado a Luanda ao fim da tarde de terça-feira (24), o chefe da diplomacia russa, acompanhado da sua delegação, vai encontrar-se na manhã de quarta-feira (25) com o ministro das Relações Exteriores, Téte António, seguindo depois para uma audiência com o Chefe de Estado angolano, João Lourenço.
Segundo o programa, por volta das 12h30, o ministro russo visita o Memorial Dr. António Agostinho Neto, bem como o jazigo do ex-Presidente José Eduardo dos Santos, que morreu em 8 de Julho do ano passado.
Lavrov segue logo depois para uma visita guiada ao Museu Nacional de História Militar e irá passar, ainda antes do almoço, pela Escola da Embaixada da Federação Russa. O diplomata regressa a Moscovo na quinta-feira (26) de manhã.
Quem estava para se deslocar a Angola, a mandato de Putin, seria o vice-presidente do Conselho de Segurança Russa, Dmitry Medvedev, mas em função de outros assuntos, foi indigitado à última hora o ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov.
Recorde-se que, quando da visita aos EUA, o Presidente da República, João Lourenço, deixou bem claro, que “somos um país soberano e somos nós que definimos a nossa política externa. Nós entendemos que deveríamos condenar a guerra na Ucrânia e anexação daquelas regiões. Somos daqueles países que atravessou um período mais longo de guerra na história de todos os povos. Nós tivemos vinte e sete anos de conflito armado, portanto nós sabemos o que é uma guerra”!











