Canal do Cafu: “Obra de esferovite” avaliada em USD 137 milhões beneficia “micheiros” em prejuízo do Estado
Canal do Cafu, o projecto considerado parte da solução para o combate à seca no Cunene, em menos de um ano desde que foi inaugurado, já está com problemas, o que denota ser uma obra de qualidade duvidosa, apesar das garantias avançadas pelo Executivo e tudo mais que tem sido dito a seu respeito, além do elevado custo da sua construção
Por: Mbinza Dikoza
As chuvas que se abateram nos últimos dias na província do Cunene, depois de um interregno de alguns anos, estão a ser apontadas como causadoras do colapso parcial de uma secção do Canal do Cafu, que integra o Sistema de Transferência de Água do Rio Cunene, inaugurado há menos de um ano pelo Presidente João Lourenco e apontado como parte importante da solução da seca no sul do país.
Porém, à primeira chuvada, a obra mostrou não ter qualidade e mais de 20 metros do muro protector abateu, permitindo que a água da chuva arrastasse areia e outros detritos para o leito do canal, inviabilizando o seu curso normal.
A custosa infraestrutura, ante a fragilidade demonstrada em poucos dias, o que pressupõe ser mais uma “obra de esferovite” como as muitas que foram construídas pelo país e têm “sugado” quantias milionárias dos cofres do Estado, não passa de um produto “construído às pressas e por razões eleitoralistas”, como é referido por distintas individualidades da sociedade civil angolana.
Além de a obra não ter obedecido aos critérios de sustentabilidade, também não mereceu uma fiscalização rigorosa por parte de quem a encomendou, como é norma fazer-se em construções de tal envergadura, e não só.
Os custos da primeira fase do projecto estão avaliados em cerca de 137 milhões de dólares, o que significa dizer que, até à conclusão do mesmo, muito mais dinheiro vai sair dos cofres do Estado.
Sendo um projecto concebido para combater a seca severa e beneficiar um total de 230 mil habitantes e cerca de 300 mil cabeças de gado, no âmbito do Programa de Combate aos Efeitos da Seca no Sul do país, o Canal do Cafu consiste num sistema de captação e transferência de água do rio Cunene para várias povoações, através de um canal adutor com 160 km de extensão, ao longo dos quais foram construídas 30 chimpacas (poços) e locais para o gado beber, com capacidade para 30 milhões de litros cada.
Em jeito de justificação e atirando a “bola” à chuva o Instituto Nacional de Recursos Hídricos do Ministério da Energia e Águas, alegou, que “houve deslocamento de placas numa das secções do Canal Condutor Geral do Cafu, estando já no terreno uma equipa de ‘especialistas’ para reparar os danos provocados”.
Círculos da sociedade angolana, tendo em conta o que já aconteceu num passado recente, com a construção de centralidades, estradas e diversas outras infraestruturas, ditas “obras de esferovite”, que degradaram-se em poucos dias, não acreditam na seriedade de tais justificações.
A execução desses projectos, que “sugam” centenas de milhões ao erário, mas que em nada beneficiam as populações, em meio ao elevado nível de desemprego, a miséria que aumenta todos dias e a subida sem freio dos bens de consumo, com destaque para a cesta básica, entre outros bens, totaliza um somatório de descrença dos cidadãos e de receio no futuro.
O cenário actual, em que se destaca o regresso das comissões (micha), volta a ser um “dejá vú” e, à semelhança do que já se viveu recentemente, o país vai continuar a gastar somas astronómicas para executar “obras de esferovite”.
Na mesma senda, a má qualidade do trabalho realizado em Angola pelas empresas chinesas de construção civil e obras públicas, é informalmente justificada por responsáveis das referidas empresas, privadas ou mistas, como “resultado” do pagamento de comissões (micha) a que tiveram de se sujeitar como forma de garantir as respectivas adjudicações.
As empresas referem que a redução das margens de proventos provocada pelo pagamento de comissões, gerou, na maior parte dos casos, em prejuízos para elas próprias. Por isso, para se defenderem de tal eventualidade, recorreram a expedientes como alterar condições dos cadernos de encargos, nomeadamente, no que toca à qualidade dos materiais, técnicas de construção aplicadas e custos de pessoal.
A cumplicidade e a “benevolência” das entidades de fiscalização, geralmente garantida pelos próprios beneficiários das comissões, ou seja, pelos mandatários dos projectos, tem sido determinante para a inobservância das condições dos cadernos. A deficiente qualidade da construção chinesa em Angola está especialmente presente nas chamadas centralidades (grandes projectos habitacionais) e nas vias rodoviárias.
A má qualidade dos materiais usados e a redução da sua quantidade, caso do alcatrão nas estradas, assim como o recurso a técnicas de construção mais baratas, fez com que os prazos de duração da maior parte das estradas construídas e/ou reconstruídas por empresas chinesas se reduzisse à metade do estimado. Em vez de 20 anos, a sua duração foi de apenas alguns anos.











