"Filó Maluca" denuncia aliança de ACJ com marimbondos
Ana Filomena Domingos, ex-militante da UNITA, expulsa do seu partido, depois de uma profunda reflexão sobre o seu afastamento compulsivo, que alega ser ilegal e injusto, em entrevista ao jornal Pungo a Ndongo, entre outros assuntos, acusa o actual líder do partido, Adalberto Costa Júnior, de destilar um ódio visceral contra os que pensam diferente no seio do partido, cuja sentença pode ser suspensão ou mesmo expulsão, como foi o seu caso.
Por: Jornal Pungo a Ndongo
Numa longa conversa com este jornal, diz que o actual líder do partido desviou a matriz ideológica do projecto do Muangai, com a introdução de inovações que nada têm a ver com aquilo que tinha sido projectado por Jonas Savimbi e companheiros, por altura da criação do seu projecto político naquela zona inóspita do Moxico.
Acrescenta que desde que Adalberto Costa Júnior ascendeu ao cargo de presidente da UNITA, em substituição de Isaías Samakuva, esta força política deixou de ser aquela que um dia os seus militantes sonhavam ter, fundamentando haver descontentamento generalizado.
Conta que desde que Adalberto Costa Júnior assumiu o poder, houve uma onda crescente de intimidação, perseguição contra militantes, quadros e simpatizantes, sobretudo aqueles que foram próximos ao presidente cessante, Isaías Samakuva, que dirigiu o partido durante 16 ininterruptos anos, mas sempre como pacificador das pequenas e grandes querelas.
Sem rodeios, denuncia, por sua conta e risco que Adalberto Costa Júnior recebe financiamento de marimbondos, particularmente da empresária Isabel dos Santos, cujos fins são revelados nesta extensa entrevista, cuja primeira parte publicamos hoje.
“O presidente Adalberto tem uma grande envolvência com os marimbondos”
Desde tenra idade Ana Filomena Junqueira da Cruz Domingos aderiu à UNITA e chegou à sua Comissão Política (CP) depois de ter passado por quase uma dezena de cargos relevantes na estrutura partidária. Natural de Luanda, e filha de um antigo amigo do finado Presidente Eduardo dos Santos, ‘Filó’ como é tratada critica a actual liderança do partido que tem à testa Adalberto Costa Júnior (ACJ) por se ter desviado dos estatutos e ao mesmo tempo ter fortes ligações com aqueles que delapidaram o erário, os marimbondos.
“Ele é financiado pelos marimbondos”, declara em entrevista a este jornal
Chamo-me Ana Filomena Junqueira da Cruz Domingos, mais conhecida por ‘Filó Maluca’.
Sou uma cidadã angolana, natural de Luanda. Envolvi-me muito cedo na vida política. Entrei na UNITA, em 1992, de lá pra cá a minha vida foi sempre dedicada à vida política activa e no Galo Negro. Ocupei muitos cargos de relevo. Trabalhei nas bases até que cheguei aos órgãos principais do partido, até 2019.
Também me dediquei muito à igreja, tendo sido escuteira da igreja Católica Romana. Sou casada com o engenheiro Daniel José Domingos ‘Maluca’ e faremos 32 anos de convivência.
Como os seus familiares reagiram a esta sua opção de aderir à UNITA se todos eles são do MPLA, alguns até da elite deste partido?
Desde a minha adolescência sempre me interessei por política. Era um hábito que tínhamos em casa. Éramos das poucas famílias que já tínhamos televisão. O meu pai era piloto aviador e viajava muito. O Governo fazia muitas importações e o meu pai trazia do exterior para Angola. Eu assistia e ouvia sempre os noticiários com ele. A minha família era maioritariamente da FNLA e do MPLA. O meu pai foi um homem que nos preparou para a vida, e não se opunha às escolhas de cada um dos filhos.
Portanto, não sofreu nenhum ‘puxão de orelhas’?
Exactamente. Quando o pai se apercebeu do meu envolvimento com a UNITA, em 1992, não fez espécie e nem me perguntou nada. Ele escutava muito a Voz da América a partir das 18 horas, e eu estava também sempre próximo a ouvir. Eu ouvia muito as entrevistas e os discursos do Dr. Jonas Savimbi e outros dirigentes da UNITA. Isso foi despertando curiosidades. Fui questionando, tal como fui educada: “questionar sempre”. E temos essa característica na família!
Então está sempre inquietante, é isso?
Deixa-me terminar senhores jornalistas. Em 1991, veio a primeira delegação da UNITA, em Luanda, e teve cobertura da televisão. Isso me fez espécie, porque fomos educados de que as pessoas da UNITA eram más, comiam pessoas, mas afinal pude notar que isso não era verdade. Notei que eles eram iguais a nós, mas com certo rigor, quer na apresentação, assim como na articulação da língua portuguesa.
E o que se seguiu?
Depois da azáfama da preparação das eleições, completei 18 anos naquele período. Havia um comité da UNITA próximo da nossa casa, ali na zona do Serpa Pinto.
Peguei as minhas irmãs e as primas, fomos para lá, e saudamos os senhores que estavam no quintal, e pedimos para falar com Abel Chivukuvuku. Os seguranças mandaram-nos esperar. O senhor entrou e voltou com uma rádio de comunicação e transmitiu para o Abel que disse para esperarmos.
Nem fizeram cinco minutos e veio numa viatura de cor branca e já não me lembro a marca. Perguntou-nos o que queríamos? E respondi que gostaríamos de ter material de propaganda da UNITA. Ele ficou espantado. Na altura era mais magra. Nos perguntou onde é que vivíamos! – E indicamos que éramos vizinhos.
E deu-vos o material de propaganda?
Cada uma de nós saiu com um saco de material de propaganda de todas as forças políticas concorrentes, ou seja, do MPLA, da UNITA, da FNLA, do PRS, do PRD, do PLD, do PAJOCA, da AD –Coligação, da FDA, e da TRD. Na brincadeira, íamos ao comício do MPLA, com material de propaganda da UNITA, e vice-versa. Também fizemos esse jogo com os demais partidos.
Sem medo?
Quase perdíamos a vida com esse tipo de aventura. Íamos morrer no último dia de campanha do MPLA. Vimos a caravana dos camaradas passar pela nossa rua a subir pelo Cine Tropical, e nós seguimos com as camisolas com a imagem de Jonas Savimbi. Isso quase levou-nos à morte.
Correram connosco, e fomos parar até a Marginal. Escondi-me em casa de uma amiga, chamada Teresa, e a irmã dela repreendeu-me, tirando-nos a camisola da propaganda e deu-me outra. E andaram à nossa procura, e felizmente não aconteceu nada de grave.
O meu pai quando se apercebeu que refugiei-me em casa de uma amiga foi logo à nossa busca.
Depois eclodiu a guerra pós–eleitoral?
Quando aconteceram os confrontos em Luanda, havia milícias do MPLA. As milícias foram orientadas para irem às casas das pessoas que moravam na nossa rua nas Ingombotas que fossem da UNITA.
Não foram apanhados?
Havia muita gente que nutria simpatia pelo Galo Negro, mas muitos estavam camuflados. Foram em direcção à nossa casa porque nós acolhemos uma família que viviam na esquina da rua.
A dona Teresa e o seu marido, o senhor Paulo que depois desapareceu. Pedi ao meu pai para acolhê-los e assim aconteceu. As milícias se apercebem e fizeram disparos em direcção à nossa casa.
O meu pai saiu aos gritos, dizendo que “ninguém toca ninguém, eu sou do MPLA”. Um dos comandantes da polícia, que era o tio Kim, gritava a partir da janela do “prédio cessar-fogo, cessar- fogo”, e os rapazes recuaram.
Entretanto, os confrontos acabaram?
Depois dos confrontos, continuei na UNITA, e conheci de seguida o meu esposo ‘Maluca’. O meu primeiro cargo na UNITA, foi equiparado a ministra da promoção da mulher, no governo sombra.
Mas o seu pai além de militante de proa do MPLA foi amigo do Presidente José Eduardo dos San tos. Isso não lhe trouxe nenhum embaraço?
Não, porque o meu pai não impedia as escolhas dos filhos e respeitava a decisão de cada um. Na verdade, foi amigo de José Eduardo dos Santos e da mãe da Isabel dos Santos.
Eu fui uma boa estudante e o meu pai acompanhou de longe as minhas actividades políticas. Só que mais tarde a vizinhança começou a dizer que a Ana é da UNITA.
Um dos vizinhos puxa o assunto e questiona o meu pai nestes termos: “então ti Tony a tua filha é da UNITA?” – e o meu pai respondeu: “ela é maior de idade, fez a sua escolha e devo respeitar.
Nós aqui somos do MPLA. Enquanto ela manter essa decisão eu vou defendê-la e apoiá-la sempre que for necessário”.
Naquele tempo uma mera conversa com um elemento da UNITA era o suficiente para desaparecer fisicamente?
Deixamos de frequentar as casas das pessoas, porque em 1992 morreu muita gente por causa de conviverem com o ‘Maluca’, mesmo não sendo da UNITA. Passei a maior parte da minha vida a conviver só com pessoas da UNITA. Não tenho que me queixar da UNITA.
Mas acabou por ser afastada do partido?
Por causa da eleição de Adalberto Costa Júnior, eu fui uma das pessoas que não apoiaram a sua campanha, ou seja, estava e ainda estou contra ele, por questões que nós tínhamos domínio. Víamos que ACJ se iria desviar da ideologia da UNITA.
O actual presidente desviou-se da rota?
É o que está a acontecer. ACJ tem uma grande envolvência com os marimbondos, e isso fez com que muitos de nós não o apoiássemos, porque a dada altura apercebemos da estratégia que havia.
Para nós não convinha continuar, porque são pessoas que estiveram envolvidas na morte do Dr. Savimbi.
Mas tem provas desse envolvimento de ACJ com os chamados marimbondos?
Sim. Nesta perspectiva, eu e outros demos o rosto. Isto valeu-nos caro. Três anos depois fomos expulsos da UNITA. Primeiro, foi uma suspensão que seria de 30 dias, e em função do congresso eles forçaram uma agenda obscura.
Uma agenda obscura?
Sugerimos na altura que como o partido estava numa confusão se deveria primeiro trabalhar na unidade, mas não havia esse consenso. Dois dias depois, só assustamos a nossa expulsão e tomamos conhecimento por via das redes sociais.
Portanto, foi uma expulsão sem qualquer comunicação, nem processo.
Mas voltando à questão, como se apercebe que ACJ, aliou-se aos marimbondos?
Nós, somos políticos, nós lidamos com todos.
Não será em função da sua posição na Assembleia Nacional quando disse que Isabel dos Santos deveria ser perdoada?
Não. Eu já sabia há muito tempo que ACJ, aliou-se aos marimbondos. Nós já conversávamos isso nos cantos sobre o seu alinhamento com os corruptos.
Com a liderança de Isaías Samakuva as coisas andavam bem na UNITA, por ser um homem não polémico. É diplomata e tem uma forma de estar e de ser muito diferente de ACJ.
A UNITA naquela altura era o holofote da sociedade, porque estava a contrapor o MPLA. Sabendo que as convulsões dentro do partido não beneficiavam a UNITA, Samakuva preferiu sempre manter a unidade.
Então acha que as convulsões internas aumentaram?
Há muito descontentamento, porque os desvios ideológicos que a UNITA sofre hoje são muito acentuados. Isso faz com que aquele militante nato, aquele militante conservador, aquele militante que conhece a linha ideológica do par- tido não concorde hoje como ela está.
“ELE ESTÁ ENVOLVIDO COM AQUELES QUE CONTRIBUÍRAM NA MORTE DE JONAS SAVIMBI’’
A carta de Muangai, não está sendo respeitada?
Sim, porque até espantou-me quando general Higino Carneiro numa entrevista concedida a uma das rádios, em Luanda, deu um ultimato à UNITA sobre os acordos do Luena em que ele dizia que, “fomos nós que criamos a UNITA –Renovada para enfraquecer a liderança de Jonas Savimbi”, e mais: “nós já aconselhamos os di rigentes da UNITA para esquecerem as ideias da Jamba e de Muangai”.
Um general afecto ao MPLA, maior adversário político da UNITA, esteve envolvido em 30 anos de conflito armado, quando diz uma coisa dessas, alto lá.
Isso e outras coisas mais para nós que respeitamos os princípios e valores da UNITA é um choque muito grande ser o presidente actual da UNITA a contrariar tudo aquilo que o Dr Savimbi construiu.
O mais agravante é a descaracterização que a UNITA sofreu em tão pouco tempo.











