Primeiro semestre: Angola regista mais de 45 mil casos de desnutrição infantil
Angola registou no primeiro semestre do corrente ano mais de 45 mil casos de desnutrição aguda infantil, 38% das crianças menores de 5 anos sofrem de desnutrição crónica e 50% das crianças morrem. A nível da população, as perdas de capital humano são assustadoras, porque a desnutrição está a afectar adultos e a terceira idade, criando uma situação calamitosa e prejudicial ao país
Por: Na Mira do Crime
A situação, que não é nova, atingiu níveis alarmantes nos últimos meses, ao ponto de deixar as autoridades sanitárias do país aflitas, alertando o Executivo para a gravidade do alto índice de desnutrição aguda que, apesar de afectar maioritariamente as crianças, também está a afectar adultos, sobretudo idosos, muitos dos quais estão a perder a vida.
Os dados do sector da Saúde em Angola descrevem que só no primeiro semestre do corrente ano, registaram-se cerca de 45 mil casos de desnutrição aguda de crianças, situação associada a mais de 50% da mortalidade infantil no país, informou a coordenadora do Programa Nacional de Desnutrição, Natália da Conceição, durante uma acção de formação e capacitação de supervisores nacionais de nutrição, em cooperação com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
César Freitas, médico da Sociedade Angolana de Pediatria, explica que na capital angolana, em Luanda, durante o ano de 2022, cerca de 26.000 crianças foram afectadas por desnutrição, das quais um grande número acabou por falecer.
O médico afirma que em Luanda, no ano passado, “registamos mais de 26.000 crianças com desnutrição e dessas, mais de 4.000 tinham a forma grave, das quais, cerca de 10% faleceram. Com relação à morte dessas crianças em função das unidades que temos, os óbitos variam de 17% a 40%, o que é considerado inaceitável", enfatizou.
No mesmo sentido, especialistas do sector da Saúde informam que a situação de desnutrição, nos dias actuais, está a afectar também pessoas adultas, com destaque para mulheres gestantes e em fase de amamentação, bem como pessoas idosas, por causa da fome.
Há casos que têm sido relatados pela comunicação social, de famílias inteiras que passam dias sem se alimentar por não terem o que comer.
Apesar de se tentar “maquilhar” a realidade social que se vive no país, face ao alto nível de desemprego e ao elevadíssimo custo de vida, a que se associa a mais recente subida dos preços da cesta básica, o Governo é chamado a prestar toda atenção às populações e deixar de lado as teorias que não levam a lado algum, para preservar o bem vida.
Enquanto isso, a oficial de nutrição do Unicef em Angola, Joana Abraão, disse que o seminário visou formar supervisores de nutrição angolanos que avaliarão se o sistema "para tratar correctamente a criança desnutrida, curar, registar os dados e reportar ao nível superior" está a funcionar.
"Nós temos 38% das crianças sofrendo de desnutrição crónica em Angola e, das crianças menores de 5 anos, 5% delas padecem de desnutrição aguda", informou Joana Abraão, reforçando que o objectivo da formação é dar ferramentas, capacitar, para se realizar uma supervisão com qualidade.
Joana Abraão referiu que o próximo Inquérito de Indicadores Múltiplos de Saúde está a ser realizado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), e vai fornecer dados mais recentes sobre a situação nutricional.
"O Unicef tem apoiado o Governo de Angola com trabalho comunitário, garantindo que haja capacitações como esta que estamos a fazer aqui, que o Governo tenha os produtos para tratar a desnutrição. Temos feito isso já há muitos anos e vamos agora verificar com o próximo inquérito como está a situação actual", frisou.
A desnutrição nas crianças em Angola contribui significativamente para a mortalidade infantil e pode causar danos permanentes ao desenvolvimento cognitivo de crianças e jovens, comprometendo o seu bem-estar e produtividade enquanto adultos.
A desnutrição, directamente ligada ao acompanhamento neo-natal, pode ser reduzida através da melhoria dos cuidados básicos de saúde da gestante, do recém-nascido e da criança pequena, e também com a adopção de hábitos favoráveis ao crescimento e desenvolvimento das crianças.
A amamentação exclusiva até aos 6 meses e continuada até aos 23 meses, por si só, proporciona às crianças o início de vida mais saudável, estimula o desenvolvimento cerebral e actua como a primeira vacina do bebé.
A amamentação reduz os custos de cuidados de saúde, criando famílias mais saudáveis e uma força de trabalho mais inteligente.
Contudo, tal objectivo só pode ser alcançado com mães saudáveis, alimentadas, em famílias tranquilas sem o expectro da fome a ensombrá-las. O aleitamento materno pode contribuir para a redução em cerca de 25% da mortalidade infantil, reduzindo também a mortalidade materna por causas como as hemorragias pós-parto.
Os governantes angolanos têm que deixar de “andar nas nuvens”, de gastar o erário em ostentações pessoais e olhar para baixo, pisar o chão e trabalhar de facto, com realismo, pelo engrandecimento do país e o bem-estar dos cidadãos e das famílias.
Enquanto isso não acontecer, a miséria vai continuar a reinar e a fome permanecerá como uma pandemia mortal a ceifar milhares de vidas humanas!











