NOTA NEGATIVA: Reabilitação de estradas um dilema sem fim à vista
A reabilitação de estradas no país, entre nacionais, principais, secundárias e terciárias, é um dos assuntos mais badalados em meios da sociedade, atendendo também a época de chuvas que já chegou, embora ainda não tenha dado uma mostra da sua (des)graça. Há décadas que o assunto se repete, porque não tem havido realmente vontade em fazer melhor, para que os dirigentes continuem a colher a “micha” e merece Nota Negativa.
Por: Na Mira do Crime
O grito de socorro vem das profundezas do Cuando Cubango, precisamente do município de Mavinga, onde os agricultores familiares lamentam por terem perdido cerca de seis mil toneladas de produtos diversos, tais como hortícolas, leguminosas, frutícolas, entre os quais grandes quantidades de alho de alta qualidade produzido naquela região.
A falta de escoamento, em virtude do mau estado das vias de acesso, para os mercados dos centros urbanos, começando por Menongue, capital da província, é a razão para que todos anos, depois de árduo trabalho, os bens alimentares produzidos pelas famílias que se dedicam à agricultura, acabem por deteriorar-se às toneladas.
Num país em que tudo está cada vez mais caro, principalmente os bens alimentares, com grande parte da população em sérias dificuldades para ter uma refeição diária, parece que na visão dos governantes é melhor importar tudo, até bens que são produzidos no país e que dariam muito bem para minimizar a carência dos cidadãos, ao mesmo tempo que estimularia os agricultores a produzir cada vez mais e outras pessoas que vendo as vantagens que poderiam obter no campo passariam também a dedicar-se à agricultura, criação de animais e outros.
Com uma agricultura activa e produtiva, revitalizaria a indústria, o sector dos transportes, o comércio e a economia seria mais robusta.
Contudo, apesar do muito que se propala sobre a diversificação da economia, os governantes angolanos, como tem reiteradamente sido descrito por especialistas, insistem em priorizar “o tecto” e não “a base” do “edifício”; preferem a política do “triângulo invertido” começando as coisas de cima para baixo, apenas na ânsia de obterem mais proveitos pessoais.
As estradas, principais, secundárias, terciárias e mesmo as “picadas”, desde que mereçam atenção constante, entre demais vias de acesso aos locais onde se produz, constituindo uma malha de comunicação harmoniosa e bem tratada, entre as diversas localidades, desde os grandes centros urbanos até às regiões mais recônditas do país, é a prioridade das prioridades num país que quer crescer economicamente e desenvolver-se.
De acordo com notícias divulgadas pela comunicação social e não só, todos anos enormes quantidades de produtos agrícolas produzidos em Angola apodrecem nos campos de produção, aumentando a carência alimentar no seio de milhares de famílias angolanas.
“Os produtores apontam como dificuldades a falta de escoamento, recursos financeiros, meios de transporte e o avançado estado de degradação das estradas em todo o país”, referem.
A província do Cuando Cubango faz fronteira com a República da Namíbia e, por esse motivo, para não perder tudo quanto produzem e ficarem na mais completa miséria, os agricultores locais, dentro das possibilidades, transportam para o país vizinho quantidades da sua produção que vendem, geralmente abaixo do preço, em vez desses produtos servirem os angolanos que tanto necessitam.
Mas a situação da falta de escoamento de produtos do campo, pelo mau estado das estradas, acontece em todo país.
Notícia recente referia que em Malanje, por exemplo, “três toneladas de frutas diversas, entre abacate, abacaxi, banana, goiaba, laranja, limão, mamão, maracujá, melancia e tangerina deterioraram-se no princípio deste ano, 2023, na fazenda Quicoca, município de Massango, cerca de 230 quilómetros da sede provincial”.
Ainda na cidade de Malanje, “a fábrica de merenda escolar de pequeno porte da Cooperativa Agrícola Futuro Jovem, do município de Cangandala, deixou de funcionar” há alguns meses, por “não haver condições para o transporte da matéria-prima e há atrasos no pagamento de uma dívida por parte da Administração Municipal local”.
“Porque as linhas de acesso [estradas terciárias] são um problema sério. Nós em Angola uma das coisas principais que estamos a apelar ao Estado é mesmo ver as linhas de acesso para as fazendas, porque é através delas que vem a alimentação para a própria população”, afirmou.
A aquisição de um camião para escoar os produtos do campo para o centro de transformação é outro desafio.
O governo angolano no âmbito do programa de facilitação do escoamento dos produtos do campo para a cidade do Ministério da Indústria e Comércio adquiriu 500 carinhas, que estão a ser distribuídas a operadores de transportes de mercadorias para reduzir os prejuízos relacionados ao escoamento dos produtos. Mas não basta ter camiões ou carrinhas.
Antes tem de haver estradas, desde as principais às terciárias em condições, para poupar também os meios de transporte.
Porque pôr os carros a circular em “caminhos de elefantes” rebenta os meios em poucos dias e surge a seguir o problema da reparação, substituição de peças, etc, o que acarreta custos elevados, entre outras dificuldades.
Mesmo em zonas próximas da capital, Luanda, vive-se a mesma situação.
Há clamores que vêm da Quissama e principalmente de Nambuangongo, província do Bengo, a cerca de 200 quilómetros.
A razão é a mesma: mau estado das vias de acesso. Veja-se, entretanto, que a própria província de Luanda, pela sua importância e por ser a que maior número de habitantes possui, é das que mais se debate com inúmeros problemas, um dos quais é o das vias secundárias e terciárias, inclusive de algumas vias principais.
Não sendo uma situação nova, Luanda não é, definitivamente, uma boa cidade quando chove.
Não parece ter uma relação saudável com a natureza, principalmente quando fenómenos naturais decidem acontecer neste território.
Há tragédias, há cheias em alguns municípios pelo facto de as vias não estarem bem. Aliás, em algumas zonas, como é o caso do Cazenga, Sambizanga, Viana, Cacuaco, os problemas nas estradas são crónicos, apesar de os cidadãos apelarem constantemente para a restruturação das mesmas, tendo em conta a época chuvosa, altura em que se criam muitos transtornos.
O Executivo tem anunciado intervenções em algumas estradas nacionais, alguns troços, quando elas precisam de intervenções muito mais sérias. A justificação tem sido a “falta de dinheiro”, porque o “asfalto está muito caro”.
Para determinados esbanjamentos há sempre dinheiro, sobretudo quando os governantes “micham”; para resolver problemas importantes, prioritários, a desculpa é sempre falta de financiamento, etc.
Fazendo jus a isso, algumas principais artérias da capital, tal como a Via Expressa Fidel de Castro, a Estrada Nacional 230, nomeadamente num troço da Vila de Viana, para só citar estas, estão a beneficiar de reabilitação.
O que se assiste, em tais intervenções, é que se está a cortar e retirar o tapete asfáltico, em pequenos troços, para repôr outro.
Na opinião de entendidos na matéria, tanto uma como outra via, não precisavam do trabalho que está a ser efectuado. Precisavam sim de arranjos, mas não da forma como tem sido feito, o que acarreta enormes gastos e corre-se o risco, tendo em conta a “udoneidade” das empresas contratadas, de se tornarem estradas de “esferovite” que só duram meia dúzia de dias.
Mas, sendo ou não necessárias tais intervenções, as vias secundárias e terciárias, mesmo algumas que já tinham entrado em obra ainda antes das eleições de Agosto de 2022, e depois pararam e ficaram assim até aos dias actuais, continuam a ser preteridas nos planos do Executivo, quando deviam ser prioritárias.
Um exemplo, para só citar um, é o da estrada, que há muito deixou de ser, do cemitério da Sanzala, importante via de ligação entre a vila-sede de Viana e o Zango, que tem sido sempre ignorada pelos diversos administradores que por ali passam e atiram as responsabilidades para o GPL.
Se no tempo seco é difícil transitar naquela via, no tempo da chuva a mesma transforma-se num cenário horrível de lama, charcos, buracos e tudo mais, além de valas a transbordar águas putrefactas, em várias áreas do município, havendo ainda a lamentar a situação melindrosa dos moradores dos bairros da Caop A, B e C, com a progressão de ravinas a engolir residências e ruas, entre outras. Realce-se que as ravinas, que estão a surgir em várias localidades da província de Luanda, já começa a ser um problema de segurança pública. Até quando?!











