NOTA NEGATIVA – Custo de vida aumenta enquanto Governo põe “água na fervura”
A sociedade angolana, com destaque para os cidadãos mais desfavorecidos, que actualmente é a maioria do povo angolano, está a viver momentos de grande desconforto. Tudo tem a ver com a violenta subida dos preços no mercado, com destaque para o dos produtos da cesta básica. Como se não bastasse o sofrimento que as famílias estão a enfrentar, o Governo, como que a “pôr água na fervura”, está a propagar um chorrilho de discursos enganosos que não vai solucionar nada. Como não podia ser diferente, esta situação é a Nota Negativa da semana!
Por: Na Mira do Crime
O Executivo angolano, nos últimos dias, tem sido severamente criticado, tanto a nível interno como externo, pela forma como está a governar o país. É geralmente considerado que os governantes angolanos “falam demais e pouco ou nada fazem”, o que já se tornou um hábito que só continua a afundar o país. Considera-se ainda que, “se Angola ainda se ‘aguenta de pe’ é por possuir inúmeras riquezas naturais, que vão dando proventos que vão sustentando algumas necessidades do país, ao mesmo tempo que enriquecem os próprios governantes e suas ‘entourages’, em detrimento da maioria dos angolanos e das gerações futuras”.
De facto, uma leitura mais atenta aos procedimentos do Executivo leva a concluir que está a cometer erros gravíssimos como, por exemplo, querer construir o “edifício” do desenvolvimento do país começando pelo teto.
Ora, o normal seria começar da base e, paulatinamente, com firmeza, ir subindo até chegar acima. Porém, o Governo fala constantemente em “diversificar a economia”, faz projecções, aponta prioridades, “pinta cenários extraordinários”, está mais preocupado em ir “caçar” investimento estrangeiro, quando o país, internamente, tem tantas insuficiências, até de base que, com foco, trabalho sério e abnegado, já teriam sido ultrapassadas.
Será que ainda não há angolanos capazes para executar empreitadas dessa natureza? Com tanto desemprego, não seria um meio para criar empregos? O que faz o Instituto Nacional de Estradas de Angola (INEA), só serve para desviar fundos públicos? São questões que precisam de respostas.
Mas se até para terraplanar ou reabilitar uma rua ainda tem que se recorrer ao estrangeiro, então está tudo dito. Falem o que quiserem, diga-se o que se disser, vamos continuar a ser “um corpo inerte onde cada abutre debica o seu pedaço”, como sabiamente nos ensinou o saudoso Agostinho Neto.
As estradas em Angola estão uma lástima, reconhece o próprio Governo. Mas para além das grandes vias, há as chamadas secundárias, terciárias, entre outras ruas, que ligam localidades onde se trabalha, onde se produz alimento e muitas outras coisas, que deixaram de existir por falta de atenção e vai-se ignorando a importância das mesmas para o desenvolvimento e para diversificar a economia.
Tudo isso porque os governantes angolanos preferem olhar para o ar e não para o chão. Quase sempre, desde há muito tempo, que se ouvem lamentos e apelos, por parte dos agricultores e outros produtores de bens, sobre o problema de falta de acessos às localidades onde trabalham e/ou vivem.
O que é ali produzido, às toneladas, não é escoado para os mercados dos municípios e/ou cidades, acabando por deteriorar-se, situação que, além de causar enormes prejuízos aos mesmos, desmoraliza e impede que mais e melhor seja feito. Então quando não se consegue organizar, reabilitar, ou mesmo terraplanar, alguns quilómetros de uma via secundária ou terciária, para facilitar a produção interna, o pequeno e médio comércio, a circulação de pessoas e bens, como se vai desenvolver o país?
Geralmente, os governantes, aos vários níveis, durante o tempo chuvoso apresentam as chuvas como desculpa para não efectuarem as obras. Mas quando chega o tempo seco, tudo fica nos diversos, ninguém liga, espera-se pela próxima época chuvosa e recomeçam as “desculpas de mau pagador”.
Mesmo na capital do país, Luanda, nos diversos municípios, vive-se o mesmo dilema, ruas intransitáveis, cheias de buracos, alagadas por rompimento de canos de água que deviam abastecer as residências dos cidadãos, mas que não chega lá por motivos de bandalha, de falta de fiscalização e manutenção.
Hoje por hoje, o município de Viana é dos mais importantes de Luanda, pelo número de habitantes, pela extensão, pela actividade comercial e industrial, etc.
Há vários anos que automobilistas e cidadãos em geral clamam pelo mau estado da estrada que liga a vila sede de Viana aos Zangos, passando pelo cemitério da Sanzala.
São apenas meia dúzia de quilómetros que se deixou, propositadamente, degradar. Os responsáveis municipais atiram a bola ao Governo provincial e este diz que depende do Governo central, mas afinal para que servem as verbas atribuídas aos municípios que nunca conseguem fazer nada?
Quando chove, já ninguém transita por aquela via e os que têm que ir a funerais naquele cemitério, enfrentam as maiores dificuldades. Sendo assim na província da cidade-mãe, a capital do país, centro de todos os poderes e decisões, é fácil saber o que se passa nas demais, aliás, as lamentações, as queixas, o clamor proveniente de diversos pontos do país dizem tudo.
Como se tem dito e observadores internacionais fazem eco dessa situação, é que muitas dificuldades existentes no país são criadas pelos próprios governantes, principalmente por causa da “micha”.
Se a produção nacional suprir as necessidades, mesmo básicas, haverá menos importações; com menos importações menos “micha”; também as suas empresas, geralmente geridas por “testas de ferro” vão importar menos e, consequentemente, vão encaixar menos.
Contudo, voltando ao assunto com que abrimos esta Nota Negativa, a subida de preços no mercado, cuja culpa está a ser depositada na subida do preço dos combustíveis, nomedamente, o da gasolina. Mas como o Governo está a subsidiar o consumo dos transportes públicos, táxis, mototáxis, principalmente, e a actividade agrícola e pesqueira, não há razão para a subida de preços da forma como está a acontecer.
Segundo atentos analistas, o anúncio da subida brusca do preço do combustível obedeceu a uma estratégia do Executivo para enganar o cidadão e a opinião pública, que está habituada ao facto de, “quando sobe o combustível tudo sobe”, desviando o foco da verdadeira razão.
A verdade é que a moeda nacional, kwanza, piorou o seu já fraquíssimo poder e está agora cotada como “a moeda mais fraca” de África. Caiu 21% no passado mês de Maio.
Até as moedas de países de menor expressão e de menos potencial em termos de riquezas naturais, estão muito acima do kwanza.
Como sempre, em Angola, tudo gira à volta do petróleo e, uma vez mais, aponta-se a queda do preço do petróleo que tornou insustentável o apoio do Banco Nacional de Angola (BNA) ao kwanza que, desse modo, tornou-se na moeda africana mais fraca este ano, depois de uma redução do seu valor de 21% no mês passado.
Segundo especialistas, “Angola tem de pagar neste ano quase dez mil milhões de dólares de dívidas e a súbita queda nos mercados cambiais da moeda nacional, o kwanza, vai tornar difícil alcançar esse objectivo, vai aumentar a inflação e a proporção da dívida em relação ao produto interno bruto”.
“Os baixos preços do petróleo e um aumento no pagamento de dívidas levaram o banco central a não poder continuar a apoiar o kwanza nos mercados cambiais”, referem. Há cerca de duas semanas, o kwanza estava a ser comercializado a 637.30 Kz por dólar americano, contra os 506 kwanzas por dólar, registados em Maio.
A moeda angolana tinha estado a ser comercializada entre 502 e 506 kwanzas desde Novembro do ano passado. A queda do valor do kwanza está aumentar a inflação, que caiu de 27,7% em Janeiro de 2022 para 10,6% em Abril de 2023, continuando a decair, e vai fazer subir também o custo do pagamento das dívidas.
Recorde-se que 80 por cento da dívida angolana é em moeda estrangeira e o país tem que pagar este ano 9.900 milhões de dólares. Quanto aos rendimentos das demais riquezas excessivamente exploradas no país nada se diz, nada se sabe e enquanto a propalada diversificação da economia não vem, porque não passa disso mesmo, propaganda sem efeitos práticos, é o povo angolano que paga a factura mais alta.
Infelizmente, o Chefe de Estado, João Lourenço, parece que só agora se apercebeu que o país tem outros recursos, como fez referência na tomada de posse do novo ministro de Estado para a Coordenação Económica, José de Lima Massano e, mais recentemente, na província do Uíge, onde orientou a primeira reunião do Conselho de Governação Local, em que participaram os governadores das dezoito províncias do país. “(Afinal) O nosso chão tem tudo!”, exclamou.











